Juro do consignado pode atingir mínima histórica no próximo ano

Juro do consignado pode atingir mínima histórica no próximo ano

Fonte: Valor Econômico

As turbulências políticas e econômicas nos últimos meses reforçaram a dupla personalidade do crédito consignado. Enquanto as taxas médias de empréstimos do gênero oferecidos a funcionários públicos e aposentados do INSS aproximam-se das mínimas históricas, as cobradas dos empregados de empresas privadas estão mais perto das máximas, segundo dados do Banco Central (BC). Esse descolamento reflete, principalmente, o cenário de incertezas que afeta mais quem trabalha em regime CLT, pois servidores e beneficiários da seguridade social contam com maior estabilidade de emprego ou renda.

A boa notícia, segundo analistas e executivos dos bancos, é que, passadas as incertezas políticas, as taxas, no geral, têm espaço para cair mais. E, se o quadro mais esperado se concretizar, com um ritmo melhor de crescimento econômico, queda do desemprego, recuperação da renda, aprovação de reformas estruturais, como a da Previdência, e consequente manutenção da taxa básica Selic em patamares historicamente baixos, os juros do consignado podem testar novas mínimas já em 2019.

Juro do consignado pode atingir mínima histórica no próximo ano

“Com esse cenário positivo, se concretizado, podemos ver sim essas taxas batendo mínimas históricas”, afirma Eduardo Jurcevic, Superintendente-Executivo de Produtos de Crédito à Pessoa Física do Santander. “À medida que o risco reduzir, isso justificaria uma queda dos spreads e das taxas de juros finais e o crédito consignado teria um espaço para acompanhar a queda da Selic e, proporcionalmente, atingir um patamar historicamente baixo”, pondera o economista da consultoria 4E, Bruno Lavieri.

Para o diretor do departamento de empréstimos e financiamentos do Bradesco, Romero Gomes de Albuquerque, “um cenário de maior estabilidade política e austeridade fiscal, resultando na aceleração da economia, abre espaço para a manutenção da queda [de taxas] percebida em 2018, especialmente no consignado privado que mantém correlação maior com o mercado de trabalho formal”.

A economista-chefe da consultoria Rosenberg, Thais Zara, aponta a queda da inadimplência como mais um fator de estímulo para as taxas finais continuarem a recuar. “Como temos um quadro de inadimplência na mínima histórica talvez a gente veja uma melhora [das taxas finais no consignado] nos próximos meses”, avalia.

Por enquanto, a modalidade mantém um nítido descompasso quando se comparam os segmentos. Segundo dados do Banco Central, em setembro, a taxa média do consignado para o setor público estava em 1,71% ao mês. Na série histórica, a mínima ocorreu em setembro de 2013, a 1,68%, ou seja, apenas 0,03 ponto percentual abaixo do número do fim do terceiro trimestre deste ano. No caso dos beneficiários do INSS, o juro médio alcançou 1,89% em setembro, menor valor registrado pela autoridade desde o início do levantamento.

Quase na ponta oposta, os trabalhadores da iniciativa privada olham os pares públicos e pensionistas a uma distância considerável. Os empregados celetistas fizeram empréstimos consignados a uma taxa média de 2,77% ao mês em setembro, ou seja, mais de 1 ponto percentual acima do que conseguiram os funcionários de organizações ligadas aos governos.

A mínima da série do BC para o setor privado ocorreu em junho de 2013, quando o juro baixou para 2,18%. A máxima foi de 3,12%, em outubro de 2016. A taxa de setembro está 0,59 ponto percentual acima do recorde de baixa e 0,35 ponto abaixo do maior nível do levantamento.

O que explica essa diferença de comportamento? Em primeiro lugar, o tamanho de cada segmento dentro dessa indústria. Dos R$ 330,4 bilhões de saldo total do consignado, apenas R$ 19,6 bilhões pertencem aos trabalhadores privados, ou seja, menos de 6% do mercado. Os servidores públicos respondem por 55,8% de todo o estoque, enquanto os beneficiários do INSS representam 38,2%.

O saldo total do crédito com recursos livres para pessoa física alcançava R$ 903 bilhões em setembro, segundo o BC. Ou seja, o consignado representava significativos 36,5% de todo o estoque de crédito livre para famílias na leitura mais recente da indústria. Se a comparação for com o total do crédito em carteira para pessoas físicas, que inclui o recurso direcionado, como o financiamento imobiliário e o arrendamento mercantil de veículos, a participação diminui para 19,1% de um total de R$ 1,728 trilhão. Ainda assim, trata-se da linha de maior peso na composição do saldo do mercado depois do financiamento imobiliário.

Em segundo lugar, os riscos explicam o custo maior da linha à iniciativa privada. As incertezas de uma das eleições mais polarizadas da história acenderam a luz de alerta das instituições. Motivos não faltaram em um cenário de crescimento mais lento, desemprego elevado, criação de vagas concentrada em postos informais, dólar em disparada e aumento da volatilidade nos mercados. Tanto que, entre janeiro e março deste ano, as taxas médias do consignado do setor privado subiram, enquanto as do público e do INSS permaneceram praticamente estáveis. Isso em um momento no qual a Selic atingia o menor patamar em todos os tempos.

As taxas privadas saíram de 2,83% ao mês em dezembro de 2017 para 2,92% em março deste ano. A Selic teve um corte de 0,25 ponto percentual e caiu para 7% ao ano em dezembro. As reduções prosseguiram no mesmo ritmo até que a taxa básica alcançou 6,5% em março deste ano, nível no qual permanece desde então.

“O mercado de crédito vinha um pouco mais contido até setembro por causa do cenário eleitoral e a gente estava experimentando uma taxa de crescimento reduzida no crédito de forma geral”, afirma Marcos Coltri, diretor de empréstimos, financiamentos e crédito imobiliário do Banco do Brasil. “Desde o começo de 2018 havia uma incerteza nada desprezível de quem seria o presidente e, após a votação, sobre quais seriam as políticas [adotadas pelo novo governo]”, acrescenta Lavieri, da 4E.

Em um ambiente de grandes dúvidas sobre a continuidade da agenda de reformas estruturais e da consolidação do equilíbrio fiscal, que imperou na maior parte de 2018, as expectativas futuras se deterioraram até as eleições, o que se refletiu na curva de juros futuros. “A taxa real ex-ante [juro futuro], que é um importante balizador do mercado, subiu este ano por conta das incertezas e com a perspectiva que pudesse haver alta da Selic diante da apreciação do câmbio”, pondera Thais, da Rosenberg.

Como resultado, o custo de captação de recursos para as instituições financeiras usarem no crédito subiu. “Quando você vai fazer o custo de ‘funding’ para definir a taxa, a Selic pode ser balizadora, mas com as incertezas eleitorais as curvas futuras abriram muito, então o custo é precificado em cima do dinheiro que está no mercado”, explica Jurcevic, do Santander.

Em um ambiente tão nebuloso, aponta o economista da 4E, “o banco acaba tendo de restringir o crédito”. Segundo avalia Lavieri, as instituições financeiras emprestam a taxas prefixadas e “teriam muito a perder caso a inflação subisse ou a Selic tivesse de ser elevada [pelo BC]”.

Ou seja, as taxas finais de financiamentos para consumidores acabaram embutindo no preço os riscos de um aperto monetário precoce ou de a situação macroeconômica se deteriorar. “A ideia do spread elevado é impedir um aumento grande das concessões e a exposição ao risco”, afirma Lavieri.

As taxas também mudam conforme o perfil do cliente e da empresa que mantêm o convênio com o banco. “Um segundo ou um terceiro consignado para a mesma pessoa costuma acarretar juros mais elevados”, aponta a economista-chefe da Rosenberg. Conforme o diretor-executivo do Itaú Unibanco, Wagner Sanches, “as taxas cobradas dependem de outros fatores que vão além da queda da Selic, como o perfil do cliente e sua capacidade de pagamento”.

Jurcevic, do Santander, acrescenta que, além da situação do cliente, até o perfil da empresa influi no custo final do financiamento. “Os convênios privados das empresas com melhor perfil conseguem ter taxas a partir de 1,40% e até 1,30% ao mês”, diz.

Já as companhias mais expostas às incertezas, que enfrentam riscos maiores de demissões em momentos de crise, têm muita rotatividade ou ainda apresentam perfil de crédito pouco favorável, costumam acabar resultando em preços maiores para seus funcionários.

Para 2019, os bancos mantêm o otimismo com o consignado. Durante a recessão e o período pré-eleitoral, o crédito com desconto em folha foi um dos carros-chefes das instituições financeiras, devido ao perfil de risco baixo. Em 12 meses até setembro, as novas concessões da modalidade cresceram 22,4%. O estoque subiu 8% no mesmo período para R$ 330,4 bilhões.

“Olhando para frente, com cenário eleitoral definido e uma economia melhor, o consignado deve continuar como carro-chefe dos bancos, porque o consumidor busca taxas menores”, afirma Coltri, do BB. O Bradesco também enxerga a linha como estratégica. “Mantemos crescimento recorrente e continuaremos trabalhando na expansão de nossa atuação”, diz o diretor de empréstimos e financiamentos do banco privado.

Na visão do superintendente do Santander, a demanda deve ficar mais forte devido às próprias características da modalidade. “Com mais geração de emprego, a pessoa que está voltando para o mercado de trabalho vai precisar se reorganizar e o consignado é o que encaixa melhor em termos de condição de pagamento, de taxas e de prazos”, diz Jurcevic.

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